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DO ANO MÁGICO
DE 1888 ATÉ AO FINAL DO SÉCULO: OS PORTUGUESES DESCOBREM
O FUTEBOL
Se não existe consenso relativamente ao ano em que terá chegado a primeira bola de futebol a Portugal, o mesmo se pode
dizer acerca da sua utilização para a realização de um jogo no nosso país. O
certo é que uma bola, trazida de Inglaterra pelos irmãos Pinto Basto, rolou na Parada de Cascais, numa tarde de domingo de
Outubro de 1888. O organizador da iniciativa, Guilherme Pinto Basto, que, para a eternidade, ficará como o introdutor do futebol
no nosso país, preferiu, humildemente, apelidar o jogo de ensaio ( denominação utilizada na época para treino). Talvez por
isso, há quem prefira apontar a data de 22 de Janeiro de 1989 e o Campo Pequeno, em Lisboa, como o tempo e espaço detentores
da originalidade da realização um jogo de futebol como deve ser disputado em Portugal.
Ainda hoje essa questão, tão fascinante como académica, permanece: constituirá este evento de Outubro de 1888 o primeiro
jogo de futebol em Portugal devidamente organizado ou terá sido apenas uma espécie de experiência, apresentação pública à
sociedade da arte de controlar uma bola com o pé ?
Seja como for, a versão Outubro de 1888 conquistou
definitivamente (?) as honras de verdade dos factos. 1888 ! O ano mágico em que tudo começou. Aqui nasceu o Império Português
do futebol. Tão belo como complexo, tão fascinante como labirintíco. Mas tão popular e visceral que desarma qualquer crítico
atento.
No início, o futebol foi adoptado por uma elite de aristocratas
e burgueses, tal como acontecera já, por exemplo, com o ténis. Era uma novidade ainda por cima vinda directamente da admirada
Velha Albion, a tradicionalista e poderosa Inglaterra. Para a elite portuguesa, lisboeta, que ditava as modas, o futebol foi,
desde logo, visto como actividade selecta, parte integrante de uma nova mentalidade defensora das manifestações atléticas
e dos valores do sport e do fair-play, que nesta altura chegava a Portugal.
A um Portugal cada vez mais decadente, até na auto-imagem
dos portugueses, escritores e não só, incapaz de rentabilizar as vastas possessões ultramarinas que detinha. Cresciam, sem
parar, a dívida e a dúvida pública, dando origem a uma enorme conflitualidade
social e política, opondo os progressistas e populistas republicanos e os resistentes conservadores monárquicos.
Em 1890, a reacção popular ao Ultimatum inglês, em 1891, a Revolta Republicana de 31 de Janeiro, no Porto, fracassada
nos seus intentos revolucionários, simbolizam um descontentamento cada vez mais generalizado em termos sociais, uma teia de
protesto que cresceria até 1910 e à implantação da República.
Devido, em grande parte, a esta situação de grande turbulência social e política, assim como ao ódio popular a tudo
o que soasse a inglês, nesta década o futebol não conseguiu estabelecer-se definitivamente como desporto popular e organizado,
mantendo-se na zona de influência da elite social que o adoptou, sendo sempre encarado como um divertimento inocente. Um sport
como outros, igualmente praticados pelos elementos da alta sociedade lisboeta. Os clubes de futebol eram simples grupos de
praticantes distintos e aristocráticos, amigos e familiares que se juntavam para se exercitar num novo jogo, possuindo estruturas
frágeis que se montavam e desmontavam durante os almoços que antecediam ou se seguiam aos jogos. Os confrontos não estavam
definidos, resultavam de desafios e pedidos de desforra, e os resultados eram encarados como pouco importantes. Imperava a
lógica do desportivismo, que se estendia o público, mais atraído pelo carácter mundano dos encontros. Repare-se que os juizes
destas partidas eram elementos das próprias equipas que tentavam gerir o jogo com imparcialidade e com todo o fair-play, obrigatório
entre estes primeiros desportistas. Como muito bem afirma Cândido de Oliveira, citado em 100 Anos de História do FC Porto, nesta altura ...não havia campos
vedados, terrenos arrelvados, bancadas para os espectadores, vestiários e balneários. Jogava-se nos lugares públicos. Não
havia aficcion nem o futebol era verdadeiramente espectáculo público. Era apenas desporto. Ou antes, uma diversão da alta
roda.
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